Diálogo 3 – Saúde sem Fronteiras

Com o objetivo de refletir sobre os avanços e desafios do uso medicinal da Cannabis sativa e explorar possíveis caminhos para romper a ignorância sobre os seus benefícios, o Diálogo 3 teve a participação de profissionais de saúde humana e animal.

O encontro contou com o clínico geral e acupunturista Júlio César Marchi como facilitador; a neurocientista Alice Poltosi, da Fitofolhas; o cirurgião oncológico Leandro Ramires, da AMA+ME; a médica Janaína Barboza; o médico veterinário Erik Amazonas, do Podican/UFSC.

A atividade aconteceu no Auditório Garapuvu/Centro de Cultura e Eventos da UFSC, no dia 22 de julho, às 10:35.

O doutor Júlio César March, médico, especialista em Acupuntura e Medicina do Trabalho, com atuação em Fitoterapia e Clínica da Dor, facilitador do Diálogo 3, iniciou saudando a todos e contou sobre sua trajetória de desobediência civil desde a vida universitária, durante a Ditadura Militar, ressaltando o avanço que representa a realização de um evento como o FloriCannabis numa universidade.

Explicou como sua relação com maconha foi um processo de aprendizagem, possibilitando juntar a ancestralidade com a ciência. Foi uma superação da sua ignorância e possibilitou que refletisse sobre como podemos intervir e apoiar no mundo em que vivemos, marcado por doenças degenerativas; doenças ancestrais; síndromes novas; pela perda de habilidades cerebrais devido falta de atividade física e crescente virtualização do cotidiano; por enfermidades relacionadas à contaminação e destruição do meio ambiente natural, que além das doenças causa a extinção de espécies, podendo inclusive extinguir o Homo Sapiens.  “Que sabedoria estamos implementando no nível da nossa sociedade e na área de saúde?”, pergunta.

Conclui dizendo que estão ali para refletir juntos sobre como a Cannabis pode ajudar a lidar com o momento atual de nossa sociedade e convida a Dra. Alice Poltossi a se apresentar.

Desenvolvendo uma medicina do cuidado

A neurocientista Alice Poltosi, relatou sobre sua trajetória como médica de família, com medicina indígena, saúde mental coletiva. Integra o “Programa Melhor em Casa” do Ministério da Saúde. Falou sobre sua relação com a medicina da maconha, que culminou na criação da Clínica FitoFolhas. Pós-graduada em Cannabis medicinal atua como prescritora. É uma ativista anti proibicionista desde quando cursava a universidade e aprofundou seus estudos sobre a Planta em 2017, devido ao quadro de Parkinson avançado de seu avô.

É uma das criadoras da Clínica FitoFolhas, que tem como linhas de atendimento principais a medicina endocanábica e a terapia de integração para experiências psicodélicas. Explicou que a equipe desenvolveu um método centrado nas necessidades da pessoa.

Fonte: Cuidado, Ciência e Resistência com a Cannabis Terapêutica, apresentação de Alice Poltosi.

Além das atividades médicas e psicoterapêuticas que oferece, a FitoFolhas é um espaço de educação e divulgação de pesquisas científicas sobre as medicinas da maconha e psicodélica. Apresentou dois relatos de caso: paciente masculino, 17 anos, diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (nível de suporte 1–2) e paciente masculino, 38 anos, concurseiro, com queixa de insônia há mais de 7 anos, detalhados na apresentação linkada.

Ciência e ativismo amoroso

Em seguida, o doutor Leandro Ramires, da AMA+ME, trouxe-nos uma reflexão sobre como o uso medicinal da maconha impactou sua vida, respondendo à pergunta que fez a si mesmo: “Para onde a planta levou minha medicina?”.

Relatou sua trajetória de cirurgião oncológico à clínico da Medicina Endocanabinóide. Foi quando morou e clinicou em Santa Catarina, 1969, que teve contato com os aspectos medicinais da Cannabis. Conseguiu um habeas corpus para cultivo e produção do óleo em casa, pois seu filho Benício tem a Síndrome de Dravet. Tratou também de seu pai que teve Alzheimer. Atualmente tem pacientes nos cinco continentes. O maior número de pessoas que atende apresenta ansiedade e depressão, depois vem Alzheimer, Parkinson, câncer. Autismo e epilepsia ocupam 10% de sua clínica.  “A minha média de atendimento hoje é de 64 anos. Eu cuido de 115 pacientes com mais de 93 anos. Então eu me tornei um geriatra por pura energia da planta”.

Apresentou a AMA+ME, criada em 2014, e mostrou um vídeo com as instalações de cultivo, secagem e processamento do óleo na organização e em sua residência.

Explicou que ao usar a Cannabis para tratar pessoas e animais, o que fazem os prescritores é Medicina Endocanabinóide: “nós não medicamos doenças, nós auxiliamos o Sistema Endocanabinóide na busca da homeostase”. Após o vídeo, apresentou estudos publicados de sua autoria e em parceria com outros pesquisadores, sobre a aplicação da medicina endocanabinóide em pessoas e animais.

A maconha como bem comum

Na sequência, a médica, professora autônoma, consultora e palestrante em congressos médicos no Brasil, México e Portugal, Janaína Barboza iniciou sua apresentação com uma abordagem crítica sobre a questão de propriedade intelectual e patentes relativas aos bens naturais: “A Natureza não é patenteável.”.

Explicou sobre o desenvolvimento da vida no planeta e os processos bioquímicos que envolvem a vida e saúde humana; sobre o sistema endocanabinóide de cães e humanos; sobre a biossíntese dos fitocanabinoides pela Cannabis sativa; sobre os terpenos e seus benefícios, sobre o efeito comitiva e sobre os processos bioquímicos que envolvem a vida e saúde humana. Finalizou perguntando: “faz sentido proibir, pela lei dos homens, qualquer coisa criada pela Natureza?”

Maconha: liberando o potencial econômico

Logo depois, teve início a apresentação do médico veterinário e professor Erik Amazonas, detentor do salvo-conduto para cultivo de Cannabis para fins veterinários na UFSC, criador e coordenador do Polo de Desenvolvimento e Inovação em Cannabis (PODICAN). Introduziu a endocanabinologia como um campo formal de estudo dentro da medicina veterinária no Brasil, incluída no currículo do curso na UFSC em 2018.

Erik Amazonas iniciou agradecendo a Paulo Coelho (ACSF/MOCASF), simbolizando todos aqueles que levantaram a bandeira da Cannabis antes da UFSC. Sua apresentação teve como tema “A Cannabis como vetor de transformação social no Brasil”.  Refletiu sobre as relações com a indústria farmacêutica e conclui que ainda temos uma abordagem limitada sobre a Cannabis: ou é crime ou é remédio. Explicou que o cultivo do cânhamo e seu aproveitamento é bioeconomia. Mostrou o cenário global da exploração da maconha e refletiu sobre a posição do Brasil, até agora fora do processo. Considera que é fundamental a autonomia brasileira em relação ao cultivo e uso integral da Planta.

PODICAN

O Polo de Desenvolvimento e Inovação em Cannabis – PODICAN é uma iniciativa voltada para o avanço da ciência e tecnologia aplicada à Cannabis medicinal e ao cânhamo industrial.  Único centro de ensino, pesquisa e extensão do Brasil autorizado ao uso veterinário de derivados da Cannabis spp., o PODICAN atua como hub de inovação e fomenta pesquisa acadêmica, desenvolvimento de novos produtos e tecnologias, além de impulsionar a regulamentação e implementação de políticas públicas sobre o tema no Brasil.

Em seguida, o facilitador doutor Júlio César Marchi abriu o debate. Após o debate,  o Diálogo foi encerrado.

Minibiografia dos palestrantes

Conheça a proposta do FloriCannabis lendo o Projeto Pedagógico

Texto produzido por Inteligência Natural: Vivianne Amaral, 2025  (54 358/SP)

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