Diálogo 2 – Ancestralidade e 100 anos de Proibição da Cannabis

Ancestralidade e 100 anos de proibição da planta Sagrada Cannabis

No Diálogo 2, um médico psiquiatra, uma ativista do Movimento Negro Unificado, um historiador, uma parlamentar indígena e um “bruxo das plantas” se encontraram para apresentar suas visões e experiência sobre questões relativas ao uso medicinal, ritualístico e religioso da Planta.

Na facilitação tivemos o historiador Henrique Carneiro (USP) e como palestrantes o doutor Wilson Gonzaga (Instituto Hermes de Transformação Humana), a vereadora Ingrid Sateré Mawé (PSOL/Florianópolis), a professora Iêda Leal (Movimento Negro Unificado) e Alesio dos Passos Santos, especialista em plantas medicinais (@alesiobruxodasplantas – Instagram) que representou o deputado estadual Padre Pedro Baldissera (PT-SC).

A atividade aconteceu no dia 22 de julho, no Auditório Garapuvu, no Centro de Cultura e Eventos da UFSC, às 9h.

Os direitos das pessoas e das plantas

O professor Henrique Carneiro, historiador e referência em estudos sobre alimentação, bebidas e drogas na história moderna, abriu o Diálogo, agradecendo a todos os presentes e à MIrella Cursino e Paulo Coelho (ACSF/MCSF) pela organização do FloriCannabis, uma demonstração que estamos chegando ao fim do proibicionismo e esse fenômeno está acontecendo globalmente. Explicou que Canadá, EUA, países europeus e Uruguai, já possuem regulação medicinal e para uso adulto da Planta. No entanto, frisou a necessidade de estarmos atentos aos modelos de regulação. Em visita recente ao Uruguai observou as limitações do modelo adotado para acesso aos produtos da maconha: venda em farmácias, cultivo privado e clubes canábicos, com limitação de 45 associados e cultivo de 99 plantas. Na sua avaliação, na realidade brasileira, temos a presença das Associações Civis, com impacto positivo sobre o acesso mais amplo da população.

Acrescentou que vivemos atualmente uma poli crise global – social, econômica e socioambiental, um esgotamento de um modelo civilizatório. Denunciou o genocídio em Gaza e outras guerras no planeta, explicando que a situação global aumenta a desesperança. Nesse ponto de clivagem que estamos atravessando, a Cannabis é um dos instrumentos que temos para aliviar a desesperança que a situação global gera. Ressaltou que a indústria farmacêutica não tem interesse na substituição de seus remédios patenteados e lucrativos por uma planta que pode ser cultivada numa horta.

Para o historiador, o grande debate agora gira em torno das questões da regulação para o cultivo, produção e comercialização da Cannabis e do cessar fogo na guerra global contra às drogas, que é uma das piores guerras e que produz o encarceramento de milhares de pessoas.

Finalizou dizendo “não queremos que as indústrias de tabaco e álcool sejam modelos para tornar commodity uma planta que é perfeitamente acessível pelas vias do auto cultivo e autoprodução, portanto independente do mercado.

Contribuições da Ancestralidade indígena

Ingrid Mawé (PSOL) que trouxe um alerta e um convite a todos que estão envolvidos na luta pela liberação, no uso e cultivo da Cannabis para que a luta seja realizada abandonando-se a visão colonial sobre a natureza: “precisamos de envolvimento e não de desenvolvimento”.

Explicou que é primordial abandonarmos a herança colonial que ainda é muito forte em nosso país. Espera-se que o envolvimento com a Cannabis possa levar-nos a abordar de forma diferente nossa relação com a natureza, com as florestas, deixar de vê-las apenas como recursos materiais.

Explicou que a luta pela Planta é um momento de cura para os povos indígenas e para ela mesma, mulher indígena e paciente. Mesmo a Cannabis não sendo nativa do Brasil, os povos indígenas aprenderam a se relacionar com ela com respeito, assim como respeitam as outras plantas da mãe Terra. E através desse respeito aprenderam a manuseá-la e a entender como ela poderia auxiliá-los nas adversidades e reforçar sua cultura. Ao longo dos séculos, a Planta se tornou parte da história indígena. Falou sobre o preconceito e criminalização que o convívio com a Cannabis trouxe para os povos indígenas. Informou sobre as perseguições que aconteceram durante a Ditadura Militar contra os povos cultivadores de maconha.

Para ela, “a maconha significa vida, significa coragem para continuar e significa resistência em meio a todas as histórias de muita luta que a gente tem enfrentado, não só no país, mas no mundo”. Frisou que nossa tendência (das sociedades contemporâneas) é ver a natureza como fonte de recurso medicinal, uma visão proprietária e conservadora, que nos afasta da natureza. Não tem dúvida sobre o potencial econômico da maconha e de sua contribuição para o desenvolvimento do país. Mas sugere que no processo de luta pela libertação da Planta Sagrada, mudemos de percepção e foquemos no envolvimento com a Planta e, através dela, com as florestas, com a natureza, com nossa ancestralidade.

Os enteógenos: acesso ao sagrado

O doutor Wilson Gonzaga se apresentou na sequência e iniciou com o tema da epidemia de doenças mentais que estamos vivendo. Informou que 38 pessoas se suicidam por dia no Brasil. Explicou que não falaria especificamente sobre a Cannabis, mas sobre as substâncias enteógenas, entre as quais a maconha pode ser inserida.

O que é enteógeno?

São substâncias naturais, geralmente encontradas em plantas e fungos, que podem induzir estados alterados de consciência. O uso destas substâncias muitas vezes está associado a experiências espirituais e xamânicas.

O termo foi proposto em 1979 por pesquisadores do uso ritualístico de plantas psicoativas, unindo o grego entheos (“Deus dentro”) e gen (“tornar-se”).

Exemplos: Cannabis sativa, cacto peyote, cogumelos do gênero Psilocybe e ayahuasca.

Continuando, o palestrante apresentou sua experiência clínica e pessoal com os enteógenos e acredita que eles podem contribuir com uma resposta à epidemia mundial de saúde mental. Explicou que estas substâncias causam uma epifania na pessoa, colocando-a em contato com o sagrado. A ciência tem conhecimento do uso ancestral destas substâncias, são séculos de uso por diversas culturas.

Atualmente sabe-se que elas atuam no cérebro produzindo neurogênese (geração de novos neurônios no cérebro) e neuroplasticidade (capacidade do cérebro para adaptar-se e se reorganizar estrutural e funcionalmente em resposta a experiências, aprendizado, lesões ou alterações ambientais). Os enteógenos oferecem expansão da consciência com presença da amorosidade, um movimento de consagração, de contato da fonte criativa. Oferecem experiências que podem trazer a cura.

Finalizando sua participação, doutor Wilson recomenda que “a normatização do uso das plantas enteógenas seja realizada sem aprisioná-las num gueto em que apenas alguns podem utilizá-las”.

O momento da reparação é agora: UBUNTU

Em continuidade, a professora e ativista Iêda Leal (Movimento Negro Unificado), iniciou trazendo fortemente a questão do proibicionismo e da reparação histórica da Planta e das populações criminalizadas pelo seu uso. Afirmou que precisamos “vencer a barreira cultural da demonização e proibição da Planta Sagrada”. E pergunta “Porque estamos presos?”.

Explicou que temos um jeito de viver que não é permitido. A criminalização é absurda! É fundamental compreender por que temos determinadas leis que tiram as pessoas do convívio natural e as encarceram. Na recreação é que a polícia prende. Precisamos vencer a tentação de guerrear, criminalizar, precisamos fazer uma reparação histórica. A abordagem punitiva em relação às drogas faliu, temos que ter outra orientação. Apresentou a seguinte sugestão:  o respeito a todas as pessoas, cultivar a ancestralidade. “Não podemos ser considerados alvos para gerar lucro. Precisamos de pessoas que possam pegar esta palavra UBUNTU com as mãos”, disse mostrando e distribuindo alguns cartazes com a palavra.

A magia curativa das plantas

O deputado estadual Padre Pedro Baltissera (PT), convidado para o evento, enviou para representá-lo Alesio dos Passos Santos, especialista em ervas medicinais e PANCs. Alesio se apresentou, explicou que trabalha com a formação de profissionais de saúde na área de fitoterapia e com pessoas comuns. Estuda, cultiva e pesquisa plantas medicinais, possuindo uma grande coleção de plantas, mas infelizmente não pode ter a Cannabis pois é proibida.

Foi enfático no sentido que temos que furar a bolha, pois falamos sempre para as mesmas pessoas. Informou que em todas as suas atividades de formação fala da medicina da Cannabis para as pessoas simples.

Segundo o bruxo das plantas, como é conhecido, precisamos formar prescritores e fazer novas pesquisas, pesquisar a farmacopeia brasileira. Atualmente está envolvido em um projeto de Arranjo Produtivo com Plantas medicinais, para a Agricultura Familiar. O Arranjo Produtivo é um esforço para promover o cultivo, produção e comercialização de plantas medicinais de forma sustentável e integrada e envolve diversos atores, desde produtores rurais e pesquisadores até indústrias e consumidores, visando fortalecer a cadeia produtiva e valorizar o conhecimento tradicional e científico sobre o uso dessas plantas em Santa Catarina. No entanto, a maconha está fora do Arranjo devido ao proibicionismo.

A seguir, o professor Henrique Carneiro abriu o debate. Por fim, ele e os demais palestrantes fizeram suas  considerações finais sobre os temas debatidos.

O historiador Henrique Carneiro fez um breve histórico sobre a proibição, ressaltando que “não foi por nenhuma medida sanitária ou médica, mas um dispositivo de poder que cria pretextos para a intervenção na vida cotidiana da população”. A proibição criminaliza amplos setores da sociedade.

Concluiu falando sobre a necessidade de se incluir na pauta dos Direitos Humanos o direito de cada pessoa escolher as plantas que desejar para sua cura. Contextualizou a luta pela liberdade da Planta como uma ação política: “estamos discutindo não apenas sobre saúde, mas sobre democracia e liberdade”.

Em suas palavras finais, a vereadora Ingrid Mawé (PSOL) afirmou que a guerra contra as drogas é uma guerra etnocida, que busca exterminar as populações negras e indígenas e ataca a diversidade e nosso direito à vida.  Concluiu: “precisamos abandonar o colonialismo, o feminicídio, a pressão sobre os corpos negros e pobres”.

Doutor Wilson Gonzaga trouxe uma visão otimista de futuro: “sonho com uma sociedade anárquica. A anarquia é a desnecessidade de chefes, um lugar em que cada um sabe o que fazer e faz com alegria e amor”.

Para Iêda Leal, hoje temos a possibilidade de vencer, de viver com alegria e envelhecer com dignidade. Temos que garantir isso. Como consideração final trouxe a necessidade de aprendermos a reconhecer a história dos outros.

Minibiografia dos palestrantes

Conheça a proposta do FloriCannabis lendo o Projeto Pedagógico

Texto produzido por Inteligência Natural: Vivianne Amaral, 2025 (54 358/SP)

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